sexta-feira, 15 de maio de 2009

Imprensa

Hoje é sexta - em Angola, o dia de ver os jornais nas ruas. Praticamente não há bancas, e as publicações são comercializadas como quase todos os outros produtos por aqui, na mão dos ambulantes, entre cigarros, aspiradores de pó, capas para celular e outras variedades. O país tem apenas um diário, o Jornal de Angola, publicado pelas Edições Novembro, do Ministério da Comunicação Social.

Ao contrário do que acontece no Brasil, o "jornal do governo" não é um Diário Oficial, mas um veículo informativo mesmo, com notícias do mundo, esporte, cultura, e, claro, do cotidiano angolano. As Edições Novembro publicam ainda o Jornal de Desportos, que sai às segundas e às sextas, e o Jornal de Economia (para o qual presto consultoria), às terças.

Apesar da presença massiva do governo no mercado editorial, Angola tem praticamente outros dez jornais, publicados todas as sextas. Depois da guerra e a pacificação dos conflitos do país, os jornais finalmente começam a se definir não pela posição política, e sim pelo estilo de abordagem e cobertura.

Os veículos de maior destaque hoje são O País e Novo Jornal, ambos baseados em modelos portugueses (e com grana tuga, claro) e sem função específica de tribuna de qualquer partido. São as publicações jornalisticamente mais próximas do modelo moderno de produção no Brasil e no Mundo.

O País e Novo Jornal também são as publicações com melhor tratamento gráfico, coloridas, em formato berliner, muito bem diagramados. O País circula até com uma revista-brinde, que lembra a Muito, do A TARDE, só que com mais texto. Mas é esse justamente o problema: mesmo nos melhores veículos, o texto aqui em Angola é duro, ruim, truncado, e isso não tem nada a ver com as diferenças que entre o português local e o português brasileiro.

Nos jornais mais atrasados, a qualidade não varia muito do que se vê nas publicações de sindicato: texto inflamado ao ponto do ridículo e esvaziado de função jornalística, matérias editorializadas, com dados distorcidos e mal interpretados (é facinho pegar uma barrigada). Nos veículos mais bem acabados, o problema todo é um certo formalismo talvez herdado de Portugal, que transforma o texto em algo próximo a uma petição, ou um compêndio de geografia. Faltam leveza, clareza e concisão.

De qualquer jeito, esses problemas vão ser paulatinamente superados à medida que sejam formados mais jornalistas. A maioria dos repórteres hoje ainda está na faculdade, e só começou a estudar jornalismo quando os cursos foram reabertos, após a guerra. São poucos os jornalistas mais experientes, e muito deles têm formação apenas empírica, mas esse convívio com profissionais estrangeiros há de ser benéfico.

O efeito se nota já na percepção que os jornalistas daqui têm sobre o trabalho da concorrência. Mesmo que ainda não tenham alcançado um nível elevado, eles observam as falhas e acertos dos outros, e chegam a ficar indignados com as aberrações que às vezes aparecem.

Por aberração, entenda-se quase sempre as capas apelativas do semanário Folha 8. O jornal já exibiu vários cadáveres em página inteira, e, mais recentemente, publicou a foto do corpo destroçado e nu de Nino Vieira, presidente de Guiné-Bissau morto em Março. Nem todo mundo está pegando o trem da evolução por aqui.

Outros jornais de Angola: Semanário Angolense,Angolense, A Capital.

3 comentários:

  1. Você matou uma curiosidade minha sobre como era o jornalismo praticado na nova Angola. Bom post, bem didático para o "olhar estrangeiro" entender o contexto em que a imprensa funciona no país.

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  2. Nessa mesma sexta-feira, 15 de Maio, tiveram início as emissões regulares da TV Zimbo:

    http://www.facebook.com/pages/TV-Zimbo/80257236073

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  3. Voce me respondeu a uma pergunta que era recorrente em minha mente,mas nem cheguei a formaliza-la aqui,mas era um vontade.
    que bom que encontrei aqui uma resposta.

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