domingo, 29 de março de 2009

Um ou outro lugar para comer

A última semana aqui em Angola foi dominada por notícias de investimentos de multinacionais no país, como as portuguesas Sumol e Oni, os Correios da Tuga, e, principalmente, a Phillips – tudo na casa dos milhões ou bilhões de dólares. Brasileiros não precisam de tanto dinheiro para ter retorno garantido por aqui. Basta abrir um restaurante de comida brazuca, coisa que não há em Luanda mesmo com uma população estimada de 30 mil patrícios.

Luanda, ao todo, tem cinco milhões de habitantes, mas a variedade gastronômica deve ser pouco maior que a de Itabuna, ou, com sorte, igual a de Feira de Santana. Depois de uma breve temporada nas Ingombotas, estou morando no bairro do Alvalade, que concentra boa parte das representações diplomáticas estrangeiras. Fico pensando: o que toda essa gente come? Tudo bem que eles devem ter seus próprios cozinheiros e comidas importadas, mas e quando dá vontade de comer fora? E o monte de imigrantes dessa babel?

Nesse pouco tempo aqui, o melhor restaurante que conheci foi o Chez Wou, um chinês na Ilha, cuja área vai até a praia. A decoração é típica, mas não excessiva, mesmo que por fora o prédio lembre aqueles castelos medievais de filmes de kung fu. As garçonetes são todas chinesas, de Guangdong, e só arranham o português. Vez ou outra falam com os clientes em Cantonês, mas lembram imediatamente que não estamos entendendo nada. Comi carne de vaca com molho de ostras e lagosta, excelentes, e a conta veio bem mais barata do que poderíamos esperar. Com bebida e rolinhos, pouco mais de 30 dólares por pessoa.

Outro bom jantar foi no Broadway, um indiano tão confiante na própria breguice que o ambiente acaba funcionando. O restaurante imita a fachada de um teatro novaiorquino, e fica ao lado da Andy's, a principal loja de departamentos da cidade, que também tem arquitetura inspirada na Big Apple. O dono dos dois estabelecimentos, Andy, é uma figura.

Indiano, chegou em Angola há 30 anos sem um dólar no bolso, a caminho do antigo Zaire. A escala demorou três dias e ele teve de trabalhar para comer. Em pouco tempo virou dono do negócio, e hoje é dono de empresas na Índia e em Hong Kong, onde passa três quartos do ano: nos três meses restantes ele fica aqui, em Luanda. Apesar da notória riqueza, Andy recebe todos os clientes do restaurante e puxa assunto, bem falante. Em inglês, claro: mesmo com tanto tempo no país, ele mal fala português, assim como todos os garçons, também indianos. Andy merece um perfilzão, feito por João Moreira Salles.

Quando fui ao Broadway, a decoração ainda era típica do dia dos namorados (14 de fevereiro): almofadas vermelhas, cortinas estampadas com motivos românticos, como cupidos, e claro, um luminoso de coração na entrada, tirado diretamente dos cenários de Moulin Rouge. A decoração de Natal teve até boneco de neve, mesmo com 35 graus na rua. O ambiente pode ser excessivo, mas a comida é no ponto: jantei um carneiro ao curry sensacional, forte, mas não exageradamente picante. Trinta e poucos dólares por pessoa a conta.

Mais informal e descontraído é o árabe Al Dar, onde pode-se apenas lanchar ou almoçar de verdade. Em geral vou ao Al Dar no fim de tarde, comer um hamburger de chili com Guaraná Antarctica (um dos raros locais que têm guaraná). O shwarma é bom, mas os pratos mais tipicamente árabes, como esfiha e quibe, são apenas normais, inferiores aos Habib's de shopping. A porção do quibe, aliás, é bem cara: quatro bolinhos pequenos saem por 1,2 mil kwanza (17 dólares), contra 600 kwanza do hamburger que eu gosto. Os garçons são angolanos, mas na cozinha só há árabes, com cara de árabes, que conversam o tempo todo e riem alto, em árabe. Volto à gastronomia depois, quando conhecer outros lugares que não sejam o atroz Panela de Barro, opção a quilo mais perto daqui de casa...

4 comentários:

  1. Continua com seu apetite desenfreado? Hahaha.
    600 dólares ou tem um zero a mais aí?

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  2. 600 kwanza, menos de dez dólares. Vou corrigir.

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  3. Você está me saindo uma mistura contemporânea de Gabriel Soares de Souza com Câmara Cascudo, rsrsrs. O pitoresco tem aquele lugar mais de admiração do que de folclore nos seus "relatos de viagem". Cada impressão postada tem muito de você e da forma como apreende esse novo mundo, nem de longe lembra um turista acidental. Banzo dá e passa. Concordo com Setaro. Mantenha o blog, no seu ritmo...

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