Tem coisa que só acontece em Angola. Por exemplo: leio na Angop que no sábado morreu o homem mais velho do município de Londuimbali, a 90 quilômetros da cidade do Huambo. O camponês Abel Francisco, de acordo com familiares, teria 150 anos, já que nasceu em 17 de abril de 1859.
A Angop talvez não tenha notado, mas se a data for verdadeira, Abel seria a pessoa mais velha de todo o mundo em todos os tempos, e não apenas o idoso mais velho de Londuimbali. A pessoa mais velha a obter reconhecimento oficial da idade foi a francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997 e chegou a conhecer Van Gogh. Ela chegou aos 122. Abel, seria, então 28 anos mais velho do que a recordista, um Usain Bolt da longevidade.
terça-feira, 31 de março de 2009
domingo, 29 de março de 2009
Um ou outro lugar para comer
A última semana aqui em Angola foi dominada por notícias de investimentos de multinacionais no país, como as portuguesas Sumol e Oni, os Correios da Tuga, e, principalmente, a Phillips – tudo na casa dos milhões ou bilhões de dólares. Brasileiros não precisam de tanto dinheiro para ter retorno garantido por aqui. Basta abrir um restaurante de comida brazuca, coisa que não há em Luanda mesmo com uma população estimada de 30 mil patrícios.
Luanda, ao todo, tem cinco milhões de habitantes, mas a variedade gastronômica deve ser pouco maior que a de Itabuna, ou, com sorte, igual a de Feira de Santana. Depois de uma breve temporada nas Ingombotas, estou morando no bairro do Alvalade, que concentra boa parte das representações diplomáticas estrangeiras. Fico pensando: o que toda essa gente come? Tudo bem que eles devem ter seus próprios cozinheiros e comidas importadas, mas e quando dá vontade de comer fora? E o monte de imigrantes dessa babel?
Nesse pouco tempo aqui, o melhor restaurante que conheci foi o Chez Wou, um chinês na Ilha, cuja área vai até a praia. A decoração é típica, mas não excessiva, mesmo que por fora o prédio lembre aqueles castelos medievais de filmes de kung fu. As garçonetes são todas chinesas, de Guangdong, e só arranham o português. Vez ou outra falam com os clientes em Cantonês, mas lembram imediatamente que não estamos entendendo nada. Comi carne de vaca com molho de ostras e lagosta, excelentes, e a conta veio bem mais barata do que poderíamos esperar. Com bebida e rolinhos, pouco mais de 30 dólares por pessoa.
Outro bom jantar foi no Broadway, um indiano tão confiante na própria breguice que o ambiente acaba funcionando. O restaurante imita a fachada de um teatro novaiorquino, e fica ao lado da Andy's, a principal loja de departamentos da cidade, que também tem arquitetura inspirada na Big Apple. O dono dos dois estabelecimentos, Andy, é uma figura.
Indiano, chegou em Angola há 30 anos sem um dólar no bolso, a caminho do antigo Zaire. A escala demorou três dias e ele teve de trabalhar para comer. Em pouco tempo virou dono do negócio, e hoje é dono de empresas na Índia e em Hong Kong, onde passa três quartos do ano: nos três meses restantes ele fica aqui, em Luanda. Apesar da notória riqueza, Andy recebe todos os clientes do restaurante e puxa assunto, bem falante. Em inglês, claro: mesmo com tanto tempo no país, ele mal fala português, assim como todos os garçons, também indianos. Andy merece um perfilzão, feito por João Moreira Salles.
Quando fui ao Broadway, a decoração ainda era típica do dia dos namorados (14 de fevereiro): almofadas vermelhas, cortinas estampadas com motivos românticos, como cupidos, e claro, um luminoso de coração na entrada, tirado diretamente dos cenários de Moulin Rouge. A decoração de Natal teve até boneco de neve, mesmo com 35 graus na rua. O ambiente pode ser excessivo, mas a comida é no ponto: jantei um carneiro ao curry sensacional, forte, mas não exageradamente picante. Trinta e poucos dólares por pessoa a conta.
Mais informal e descontraído é o árabe Al Dar, onde pode-se apenas lanchar ou almoçar de verdade. Em geral vou ao Al Dar no fim de tarde, comer um hamburger de chili com Guaraná Antarctica (um dos raros locais que têm guaraná). O shwarma é bom, mas os pratos mais tipicamente árabes, como esfiha e quibe, são apenas normais, inferiores aos Habib's de shopping. A porção do quibe, aliás, é bem cara: quatro bolinhos pequenos saem por 1,2 mil kwanza (17 dólares), contra 600 kwanza do hamburger que eu gosto. Os garçons são angolanos, mas na cozinha só há árabes, com cara de árabes, que conversam o tempo todo e riem alto, em árabe. Volto à gastronomia depois, quando conhecer outros lugares que não sejam o atroz Panela de Barro, opção a quilo mais perto daqui de casa...
Luanda, ao todo, tem cinco milhões de habitantes, mas a variedade gastronômica deve ser pouco maior que a de Itabuna, ou, com sorte, igual a de Feira de Santana. Depois de uma breve temporada nas Ingombotas, estou morando no bairro do Alvalade, que concentra boa parte das representações diplomáticas estrangeiras. Fico pensando: o que toda essa gente come? Tudo bem que eles devem ter seus próprios cozinheiros e comidas importadas, mas e quando dá vontade de comer fora? E o monte de imigrantes dessa babel?
Nesse pouco tempo aqui, o melhor restaurante que conheci foi o Chez Wou, um chinês na Ilha, cuja área vai até a praia. A decoração é típica, mas não excessiva, mesmo que por fora o prédio lembre aqueles castelos medievais de filmes de kung fu. As garçonetes são todas chinesas, de Guangdong, e só arranham o português. Vez ou outra falam com os clientes em Cantonês, mas lembram imediatamente que não estamos entendendo nada. Comi carne de vaca com molho de ostras e lagosta, excelentes, e a conta veio bem mais barata do que poderíamos esperar. Com bebida e rolinhos, pouco mais de 30 dólares por pessoa.
Outro bom jantar foi no Broadway, um indiano tão confiante na própria breguice que o ambiente acaba funcionando. O restaurante imita a fachada de um teatro novaiorquino, e fica ao lado da Andy's, a principal loja de departamentos da cidade, que também tem arquitetura inspirada na Big Apple. O dono dos dois estabelecimentos, Andy, é uma figura.
Indiano, chegou em Angola há 30 anos sem um dólar no bolso, a caminho do antigo Zaire. A escala demorou três dias e ele teve de trabalhar para comer. Em pouco tempo virou dono do negócio, e hoje é dono de empresas na Índia e em Hong Kong, onde passa três quartos do ano: nos três meses restantes ele fica aqui, em Luanda. Apesar da notória riqueza, Andy recebe todos os clientes do restaurante e puxa assunto, bem falante. Em inglês, claro: mesmo com tanto tempo no país, ele mal fala português, assim como todos os garçons, também indianos. Andy merece um perfilzão, feito por João Moreira Salles.
Quando fui ao Broadway, a decoração ainda era típica do dia dos namorados (14 de fevereiro): almofadas vermelhas, cortinas estampadas com motivos românticos, como cupidos, e claro, um luminoso de coração na entrada, tirado diretamente dos cenários de Moulin Rouge. A decoração de Natal teve até boneco de neve, mesmo com 35 graus na rua. O ambiente pode ser excessivo, mas a comida é no ponto: jantei um carneiro ao curry sensacional, forte, mas não exageradamente picante. Trinta e poucos dólares por pessoa a conta.
Mais informal e descontraído é o árabe Al Dar, onde pode-se apenas lanchar ou almoçar de verdade. Em geral vou ao Al Dar no fim de tarde, comer um hamburger de chili com Guaraná Antarctica (um dos raros locais que têm guaraná). O shwarma é bom, mas os pratos mais tipicamente árabes, como esfiha e quibe, são apenas normais, inferiores aos Habib's de shopping. A porção do quibe, aliás, é bem cara: quatro bolinhos pequenos saem por 1,2 mil kwanza (17 dólares), contra 600 kwanza do hamburger que eu gosto. Os garçons são angolanos, mas na cozinha só há árabes, com cara de árabes, que conversam o tempo todo e riem alto, em árabe. Volto à gastronomia depois, quando conhecer outros lugares que não sejam o atroz Panela de Barro, opção a quilo mais perto daqui de casa...
terça-feira, 24 de março de 2009
FAIL?
>>> Começo a desconfiar da vida útil desse blog. Não por falta de coisas a ver e dizer sobre a vida de gringo em Angola, mas por uma rotina que não deixa muito espaço para essa observação, que considero primordial para a vida de estrangeiro. Sinto-me novamente como o turista acidental do filme, preso numa cadeia de ambientes com ar refrigerado: casa / carro / trabalho / carro / casa.
>>> Não era exatamente isso o que eu queria, mas talvez seja só banzo, coisa totalmente normal, colegas me dizem. Pensando bem, minha rotina nos últimos meses em Salvador não era muito diferente, com a ressalva que eu andava de buzu e tinha uma liberdade de movimentos na cidade proporcionada pelo meu próprio conhecimento de habitante, não nativo, mas radicado há algum tempo ali.
>>> Cinema me faz muita falta aqui. No último sábado, dei um extra pro motorista (que normalmente não trabalha fim de semana) e fui ao Bellas Shopping - muito longe - ver Milk. Bom filme. No caminho, mesmo dentro do ar, um momento interessante: o motô resolveu cortar caminho na Estrada da Samba passando por dentro de um bairro chamado Coreia. Sujeira e favela daqui têm dimensão assustadora para estrangeiros, mas não deixa de ser reconfortante passar por um pouco de vida real nessa cidade. Por outro lado, que frivolidade a minha: todo mundo merece esgoto tratado e ruas em boas condições.
>>> Coreia me lembrou o nome de algumas ruas de Salvador próximas à Estação Pirajá: rua do Afeganistão, da Indonésia, da Palestina e do Camboja, perfeita oposição às vias europeias do Comércio. Saudade de trabalhar na rua.
>>> Salvador, tô chegando! Se tudo der certo, embarco 13 de abril para 15 dias de férias. Talvez minha agonia se deva a isso: reencontro com família & amigos, promessas de festa já agendadas (moqueca de feijão na casa de Pamplona & Sombra vai rolar; nova reunião de chegada-despedida no Rio Vermelho; etc)... Ora de começar a pensar nos presentes, no cds de Tarrachinha de Nilson & Larissa, nos bubus para Camilla.
>>> No próximo post prometo evitar esse tom de descarrego. Não gosto de blogs-divã, e por isso vou manter vocês livres dessa chatice. Arrumo algo legal da cidade para mostrar aqui da próxima vez.
>>> Não era exatamente isso o que eu queria, mas talvez seja só banzo, coisa totalmente normal, colegas me dizem. Pensando bem, minha rotina nos últimos meses em Salvador não era muito diferente, com a ressalva que eu andava de buzu e tinha uma liberdade de movimentos na cidade proporcionada pelo meu próprio conhecimento de habitante, não nativo, mas radicado há algum tempo ali.
>>> Cinema me faz muita falta aqui. No último sábado, dei um extra pro motorista (que normalmente não trabalha fim de semana) e fui ao Bellas Shopping - muito longe - ver Milk. Bom filme. No caminho, mesmo dentro do ar, um momento interessante: o motô resolveu cortar caminho na Estrada da Samba passando por dentro de um bairro chamado Coreia. Sujeira e favela daqui têm dimensão assustadora para estrangeiros, mas não deixa de ser reconfortante passar por um pouco de vida real nessa cidade. Por outro lado, que frivolidade a minha: todo mundo merece esgoto tratado e ruas em boas condições.
>>> Coreia me lembrou o nome de algumas ruas de Salvador próximas à Estação Pirajá: rua do Afeganistão, da Indonésia, da Palestina e do Camboja, perfeita oposição às vias europeias do Comércio. Saudade de trabalhar na rua.
>>> Salvador, tô chegando! Se tudo der certo, embarco 13 de abril para 15 dias de férias. Talvez minha agonia se deva a isso: reencontro com família & amigos, promessas de festa já agendadas (moqueca de feijão na casa de Pamplona & Sombra vai rolar; nova reunião de chegada-despedida no Rio Vermelho; etc)... Ora de começar a pensar nos presentes, no cds de Tarrachinha de Nilson & Larissa, nos bubus para Camilla.
>>> No próximo post prometo evitar esse tom de descarrego. Não gosto de blogs-divã, e por isso vou manter vocês livres dessa chatice. Arrumo algo legal da cidade para mostrar aqui da próxima vez.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Mussulo
No último domingo fui a outra praia famosa de Angola, a Ilha do Mussulo. A 25 minutos de lancha da costa da capital, a ilha é mais um anteparo do continente em relação ao mar aberto. Do outro lado do Mussulo, sim, há Oceano Atlântico de verdade.
Com um grupo de colegas brasileiros, partimos bem cedo para não enfrentar engarrafamento, e na partida do barco encontramos mais colegas - pegamos o barco junto pelas almas calmas desse falso mar entre continente e ilha. Na prática, uma gigante lagoa de água salgada.
No local onde as lanchas aportam, um único bar, caríssimo, onde a cerveja bate nos dez dólares. O estabelecimento ocupa o melhor trecho de praia, e a areia é ocupada por guarda-sóis e espreguiçadores acolchoados - pagamento à parte, claro. E claro que o bar estava lotados de exilados branquelos e vermelhos, todos portugueses, aparentemente. (Trilha péssima, "You're Beautiful").
Ao lado desse trecho, algumas barraquinhas desocupadas, e a falsa informação de que a estadia ali era free. Mas logo o dono da barraca aparece e nos expulsa, já que havia combinado o aluguel a outro inquilino, que chega à praia na sua lancha particular.
Lá vamos nós andando novamente, em direção ao outro lado, depois do bar chique. Encontramos abrigo em dois coqueiros anões, em frente a uma casa abandonada. Casa, vírgula. O local era um projeto de resort abortado, de donos chineses. Dois angolanos tomam conta do imóvel, e nos ajudam a comprar cerveja.
O almoço encomendamos de uma senhora nativa - arroz, batata frita e frango para
nove pessoas. Frango de quintal, criado solto. Quando fomos pagar a senhora (5,400 kwanza, uns 70 dólares, por aí), as irmãs da cozinheira - nativas também da mesma comunidade, de casas espalhadas sob a areia - conversavam sentadas no chão, embaixo de uma árvore, no meio da tarde, como se não houvesse amanhã. Pura paz.
Que vai logo embora tão logo entramos no barco: um grupo de libaneses nos acompanha em alta e divertida cantoria. Um colega português/angolano, intrigado, pergunta o que é o Habib que ouvimos toda hora. "Eu te amo". Pois é, no Brasil a gente mata a fome no Eu Te Amo's.
Com um grupo de colegas brasileiros, partimos bem cedo para não enfrentar engarrafamento, e na partida do barco encontramos mais colegas - pegamos o barco junto pelas almas calmas desse falso mar entre continente e ilha. Na prática, uma gigante lagoa de água salgada.
No local onde as lanchas aportam, um único bar, caríssimo, onde a cerveja bate nos dez dólares. O estabelecimento ocupa o melhor trecho de praia, e a areia é ocupada por guarda-sóis e espreguiçadores acolchoados - pagamento à parte, claro. E claro que o bar estava lotados de exilados branquelos e vermelhos, todos portugueses, aparentemente. (Trilha péssima, "You're Beautiful").
Ao lado desse trecho, algumas barraquinhas desocupadas, e a falsa informação de que a estadia ali era free. Mas logo o dono da barraca aparece e nos expulsa, já que havia combinado o aluguel a outro inquilino, que chega à praia na sua lancha particular.
Lá vamos nós andando novamente, em direção ao outro lado, depois do bar chique. Encontramos abrigo em dois coqueiros anões, em frente a uma casa abandonada. Casa, vírgula. O local era um projeto de resort abortado, de donos chineses. Dois angolanos tomam conta do imóvel, e nos ajudam a comprar cerveja.
O almoço encomendamos de uma senhora nativa - arroz, batata frita e frango para
nove pessoas. Frango de quintal, criado solto. Quando fomos pagar a senhora (5,400 kwanza, uns 70 dólares, por aí), as irmãs da cozinheira - nativas também da mesma comunidade, de casas espalhadas sob a areia - conversavam sentadas no chão, embaixo de uma árvore, no meio da tarde, como se não houvesse amanhã. Pura paz.
Que vai logo embora tão logo entramos no barco: um grupo de libaneses nos acompanha em alta e divertida cantoria. Um colega português/angolano, intrigado, pergunta o que é o Habib que ouvimos toda hora. "Eu te amo". Pois é, no Brasil a gente mata a fome no Eu Te Amo's.
quarta-feira, 4 de março de 2009
É (foi) carnaval
Na prática, o carnaval aqui em Luanda dura apenas um dia, e consiste em desfiles de blocos em uma das principais avenidas da cidade, a Marginal. Depois de pequenos desfiles no domingo e na segunda, a rua é completamente interditada na terça para a passagem dos grupos principais, vindos de todo o país, somente para dançar num pequeno trecho de pista e mostrar animação frente aos políticos e redes de televisão.
Do mesmo jeito que em Salvador os trios guardam suas apostas de hit para os locais onde há cobertura televisiva, aqui é nítida a influência da presença das câmeras na animação. Os blocos são bonitos, mas também são "para inglês ver".
A música é quase um acidente. Não há performances ao vivo, nem tampouco trios elétricos. Cada grupo deixa o cd com suas músicas típicas na mesa de som, e elas são reproduzidas na avenida por um sistema de rádio-poste.
A população da cidade não entra na avenida, mas não há a presença selvagem da corda, nem a sensação de competição social entre bloco e pipoca, como em Salvador. As duas partes são a mesma coisa. Em ambas, pode-se respirar à vontade, já que a festa não atrai tanta gente. Enche, mas não lota.
Apesar da dimensão reduzida da folia, os angolanos que decidem aparecer ir à Marginal costumam usar fantasias - e mais uma vez tenho a referência de antigos carnavais brasileiros. Vale tudo. Desde máscaras compradas em armarinho até opções mais elaboradas.
Um colega brasileiro observou a grande quantidade de pessoas fantasiadas de feridos, com braços falsamente engessados, ou curativos no corpo todo. Alguns mais detalhistas incluíam cicatrizes na barriga, e facas enterradas na cabeça. Sinais de uma guerra civil não muito distante no tempo, com seus feridos e mutilados.
No dia de carnaval, por aqui, pode tudo: em dias normais é proibido andar sem camisa pela cidade, mas durante a folia um angolano sai andando completamente nu e a polícia não faz nada. No carnaval pode.
Do mesmo jeito que em Salvador os trios guardam suas apostas de hit para os locais onde há cobertura televisiva, aqui é nítida a influência da presença das câmeras na animação. Os blocos são bonitos, mas também são "para inglês ver".
A música é quase um acidente. Não há performances ao vivo, nem tampouco trios elétricos. Cada grupo deixa o cd com suas músicas típicas na mesa de som, e elas são reproduzidas na avenida por um sistema de rádio-poste.
Fotos de Manuela Cavadas, ex-colega de jornal e agora colega de apê
A população da cidade não entra na avenida, mas não há a presença selvagem da corda, nem a sensação de competição social entre bloco e pipoca, como em Salvador. As duas partes são a mesma coisa. Em ambas, pode-se respirar à vontade, já que a festa não atrai tanta gente. Enche, mas não lota.
Apesar da dimensão reduzida da folia, os angolanos que decidem aparecer ir à Marginal costumam usar fantasias - e mais uma vez tenho a referência de antigos carnavais brasileiros. Vale tudo. Desde máscaras compradas em armarinho até opções mais elaboradas.
Um colega brasileiro observou a grande quantidade de pessoas fantasiadas de feridos, com braços falsamente engessados, ou curativos no corpo todo. Alguns mais detalhistas incluíam cicatrizes na barriga, e facas enterradas na cabeça. Sinais de uma guerra civil não muito distante no tempo, com seus feridos e mutilados.
No dia de carnaval, por aqui, pode tudo: em dias normais é proibido andar sem camisa pela cidade, mas durante a folia um angolano sai andando completamente nu e a polícia não faz nada. No carnaval pode.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Shopear
Tenho falado isso para amigos constantemente: Luanda é Salvador 50 anos antes. Claro que a frase é redutora, mas há alguns aspectos que confirmam essa ideia para mim. Por exemplo: só há um shopping center na cidade, de um andar só, e fica bem longe. Aqui no centro da cidade, o comércio é parecido com o que há na Avenida Sete e na Carlos Gomes, em Salvador - todo em lojas no térreo de prédios, com muitos ambulantes. Algumas dessas lojas evocam a Rua Chile antiga, como as boutiques de moda e as lojas de decoração. Uma delas se chama charmosamente "Casa Paris" - um "colosso", diria algum personagem de Jorge Amado.
Já o Belas Shopping é genérico como qualquer shopping. Fica distante da cidade velha o suficiente para não ter qualquer identidade, e abriga uma fauna de consumidores em grande parte estrangeiros, que fazem de suas instalações um country club do exílio.
A praça de alimentação fica logo na entrada principal, e tem pouca variação. Um grande restaurante a quilo com um número limitado de pratos. Quando fui lá comi feijão salgado com um peixe que não me lembro o nome, bem bom. Há também uma das duas sedes do Bob's. Eu fui na outra, na Ilha de Luanda, e é realmente o fast food mais lento que já vi. Os sanduíches parecem imitação do brasileiro, e não algo que segue um padrão - até o pão é diferente. Na praça de alimentação também há o único japonês de Angola (amigos veementemente me instaram a evitar) e um chinês, além de outros fast foods menores. O American Hot Dog tem um cachorro quente muito bom, ainda que caro.
Seguindo mais adiante, há o cinema, uma banca de revista e várias lojas variadas, mas não há âncoras por aqui. Comprei por pouco mais de dez dólares uma caixa de Sal de Eno, mas ainda não achei Magnésia Bisurada, a única coisa que cura minha azia de verdade.

O que mais digno de nota? Um estande de milk shake e casquinha do Bob's, bem mais rápido, uma livraria Nobel, fraquíssima, e o supermercado Shoprite, grande como o Extra. Lá tem tudo, e as coisas são bem mais baratas que no Jumbo, o supermercado que fica perto de casa. O Shoprite é o lugar menos country club do shopping, onde há mais angolanos, e onde se sente uma diferença de costumes mais acentuada. Um casal amigo se beijou na fila do caixa e causou espécie: dois senhores começaram a cochichar e encará-los, e ainda recriminou a caixa por dar conversa a "esses brasileiros".
Se a ausência de shoppings é o medidor do atraso de Luanda, eles estão tentando tirar a distância em padrão Kubitschek: pelo menos três centros comerciais devem ser inaugurados em breve, e um deles aqui perto de casa, num complexo que também inclui prédios empresariais, residenciais e hotel cinco estrelas, no mesmo estilo more-e-trabalhe-no-mesmo-lugar que tem se espalhado em Salvador. A parte boa é que o shopping deve ter quatro salas de cinema, o que me libera de viajar mais de uma hora para ficar atualizado dos últimos lançamentos.
Tenho ido ao cinema daqui, e é bem bom, melhor que os multiplexes de Salvador. O dono é Aquiles Mônaco, proprietário do Multiplex Iguatemi, e dos cinemas do Barra, Lapa, Ponto Alto, e sócio do UCI Aeroclube. Não deixa de ser cômico que as melhores poltronas e instalações estejam aqui, do outro lado do oceano. A programação, óbvio, não pode ser tão atualizada quanto a de Salvador, mas filmes de "prestígio" como Operação valquíria, Austrália, e Dúvida estrearam aqui antes. O Curioso Caso de Benjamin Button e Revolutionary Road estrearam junto com o lançamento brasileiro.Quanto à fama de que os angolanos ficam conversando no cinema, até agora não vi nada pior do que vejo em Salvador, mas isso talvez se deva ao fato de que não tenho ido assistir aos filmes mais populares.
Já o Belas Shopping é genérico como qualquer shopping. Fica distante da cidade velha o suficiente para não ter qualquer identidade, e abriga uma fauna de consumidores em grande parte estrangeiros, que fazem de suas instalações um country club do exílio.
A praça de alimentação fica logo na entrada principal, e tem pouca variação. Um grande restaurante a quilo com um número limitado de pratos. Quando fui lá comi feijão salgado com um peixe que não me lembro o nome, bem bom. Há também uma das duas sedes do Bob's. Eu fui na outra, na Ilha de Luanda, e é realmente o fast food mais lento que já vi. Os sanduíches parecem imitação do brasileiro, e não algo que segue um padrão - até o pão é diferente. Na praça de alimentação também há o único japonês de Angola (amigos veementemente me instaram a evitar) e um chinês, além de outros fast foods menores. O American Hot Dog tem um cachorro quente muito bom, ainda que caro.
Seguindo mais adiante, há o cinema, uma banca de revista e várias lojas variadas, mas não há âncoras por aqui. Comprei por pouco mais de dez dólares uma caixa de Sal de Eno, mas ainda não achei Magnésia Bisurada, a única coisa que cura minha azia de verdade.
O que mais digno de nota? Um estande de milk shake e casquinha do Bob's, bem mais rápido, uma livraria Nobel, fraquíssima, e o supermercado Shoprite, grande como o Extra. Lá tem tudo, e as coisas são bem mais baratas que no Jumbo, o supermercado que fica perto de casa. O Shoprite é o lugar menos country club do shopping, onde há mais angolanos, e onde se sente uma diferença de costumes mais acentuada. Um casal amigo se beijou na fila do caixa e causou espécie: dois senhores começaram a cochichar e encará-los, e ainda recriminou a caixa por dar conversa a "esses brasileiros".
Se a ausência de shoppings é o medidor do atraso de Luanda, eles estão tentando tirar a distância em padrão Kubitschek: pelo menos três centros comerciais devem ser inaugurados em breve, e um deles aqui perto de casa, num complexo que também inclui prédios empresariais, residenciais e hotel cinco estrelas, no mesmo estilo more-e-trabalhe-no-mesmo-lugar que tem se espalhado em Salvador. A parte boa é que o shopping deve ter quatro salas de cinema, o que me libera de viajar mais de uma hora para ficar atualizado dos últimos lançamentos.
Tenho ido ao cinema daqui, e é bem bom, melhor que os multiplexes de Salvador. O dono é Aquiles Mônaco, proprietário do Multiplex Iguatemi, e dos cinemas do Barra, Lapa, Ponto Alto, e sócio do UCI Aeroclube. Não deixa de ser cômico que as melhores poltronas e instalações estejam aqui, do outro lado do oceano. A programação, óbvio, não pode ser tão atualizada quanto a de Salvador, mas filmes de "prestígio" como Operação valquíria, Austrália, e Dúvida estrearam aqui antes. O Curioso Caso de Benjamin Button e Revolutionary Road estrearam junto com o lançamento brasileiro.Quanto à fama de que os angolanos ficam conversando no cinema, até agora não vi nada pior do que vejo em Salvador, mas isso talvez se deva ao fato de que não tenho ido assistir aos filmes mais populares.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Infra
Estou morando aqui em Angola há exatamente um mês. Peguei o voo da TAAG no Rio de Janeiro no dia 13 de janeiro e, ao contrário do que aconteceu com outros colegas, cheguei aqui são e salvo, sem nenhuma infeccção intestinal causada pelo rango que eles servem, e minha mala apareceu em menos de uma hora, intacta.
Num balanço desse primeiro mês, tenho de reconhecer que a sensação de bolha é meio que inevitável, ao menos em curto prazo. Fui a alguns lugares muito bons, mas somos de alguma maneira protegidos pela estrutura de acolhimento das empresas que contratam estrangeiros para que nos sintamos em casa, o que é muito bom. Por outro lado, isso sacrifica um pouco a experiência de "viver fora" de verdade, entre as pessoas.
Mas provavelmente estou sendo um pouco ingênuo em querer chegar a outro lugar e me misturar a ponto de me tornar indistinto dos locais. A melhor coisa é aceitar a condição de estrangeiro e viver assim do melhor jeito possível, e acho que estou conseguindo fazer isso. Só não quero ser um "turista acidental".
***
Desde que cheguei aqui, a última semana foi a mais caótica na minha relação com a cidade. Com a volta às aulas, finalmente percebi como isso aqui pode realmente parar de funcionar devido ao trânsito. Luanda tem um 5 milhões de habitantes, mas o centro daqui tem um tamanho proporcional a uma cidade de 500 mil habitantes.
Como o sistema de transporte coletivo está suspenso e todo mundo se desloca por meio das candongas (as peruas locais, no regime de salve-se quem puder, sem tarifas fixas e gente amontoada até que não caiba mais ninguém), o trânsito dá um nó nas vias principais do centro, todas estreitas, já que isso aqui é uma cidade colonial. E, claro, como não há táxis ou qualquer outra alternativa, os gringos e abastados todos andam de carro, o que faz com que o número de veículos rodando na cidade seja muito maior que o suportado.
Resultado: para quem mora em Luanda Sul e precisa se deslocar para o Centro para trabalhar, pode contar três horas perdidas por dia no congestionamento. Quem tem de se deslocar dentro do centro, como eu, perde menos tempo porque encontra trânsito livre à noite, mas não consegue se livrar de congestionamentos de até um hora para trechos percorríveis em 10 minutos durante o dia. Foi mais ou menos assim para mim essa semana: engarrafamento todo dia.
Como se esse estresse não fosse suficiente, as obras na cidade (inúmeras - Luanda é um canteiro) frequentemente derrubam água e energia elétrica, e vivemos à base do gerador e da bomba. Quando a gasolina do gerador acaba... Pelo menos há o consolo de que a cidade vai melhorar com tudo isso. Nesse um mês vi pequenas obras começarem e serem terminadas em ritmo relâmpago, e cada pequena intervenção dessas tem reflexo imediato da melhoria das condições de vida por aqui.
Num balanço desse primeiro mês, tenho de reconhecer que a sensação de bolha é meio que inevitável, ao menos em curto prazo. Fui a alguns lugares muito bons, mas somos de alguma maneira protegidos pela estrutura de acolhimento das empresas que contratam estrangeiros para que nos sintamos em casa, o que é muito bom. Por outro lado, isso sacrifica um pouco a experiência de "viver fora" de verdade, entre as pessoas.
Mas provavelmente estou sendo um pouco ingênuo em querer chegar a outro lugar e me misturar a ponto de me tornar indistinto dos locais. A melhor coisa é aceitar a condição de estrangeiro e viver assim do melhor jeito possível, e acho que estou conseguindo fazer isso. Só não quero ser um "turista acidental".
***
Desde que cheguei aqui, a última semana foi a mais caótica na minha relação com a cidade. Com a volta às aulas, finalmente percebi como isso aqui pode realmente parar de funcionar devido ao trânsito. Luanda tem um 5 milhões de habitantes, mas o centro daqui tem um tamanho proporcional a uma cidade de 500 mil habitantes.
Como o sistema de transporte coletivo está suspenso e todo mundo se desloca por meio das candongas (as peruas locais, no regime de salve-se quem puder, sem tarifas fixas e gente amontoada até que não caiba mais ninguém), o trânsito dá um nó nas vias principais do centro, todas estreitas, já que isso aqui é uma cidade colonial. E, claro, como não há táxis ou qualquer outra alternativa, os gringos e abastados todos andam de carro, o que faz com que o número de veículos rodando na cidade seja muito maior que o suportado.
Resultado: para quem mora em Luanda Sul e precisa se deslocar para o Centro para trabalhar, pode contar três horas perdidas por dia no congestionamento. Quem tem de se deslocar dentro do centro, como eu, perde menos tempo porque encontra trânsito livre à noite, mas não consegue se livrar de congestionamentos de até um hora para trechos percorríveis em 10 minutos durante o dia. Foi mais ou menos assim para mim essa semana: engarrafamento todo dia.
Como se esse estresse não fosse suficiente, as obras na cidade (inúmeras - Luanda é um canteiro) frequentemente derrubam água e energia elétrica, e vivemos à base do gerador e da bomba. Quando a gasolina do gerador acaba... Pelo menos há o consolo de que a cidade vai melhorar com tudo isso. Nesse um mês vi pequenas obras começarem e serem terminadas em ritmo relâmpago, e cada pequena intervenção dessas tem reflexo imediato da melhoria das condições de vida por aqui.
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